Olá queridos visitantes!!
Hoje trouxe para vocês uma resenha crítica de um texto que trata do que significa entender e compreender, exemplificando o ensino da matemática. Escolhi resenhar este artigo porque o que é problematizado muito se aproxima das discussões e reflexões sobre as formas alternativas de educação - o que não deixa de ser tecnologia.
O
que significa Entender/Compreender?
ABIDO,
A.S.
OTTE,
M.F.
Os autores começam a
reflexão nos apresentando as problemáticas existentes no ensino da matemática
no contexto escolar. As dificuldades e falta de contextualização de conteúdos
matemáticos com os sujeitos que dela se apropriam ou pelo menos acham que se
apropriam. Para contextualizar as hipóteses dos autores que afirmam que a principal
dificuldade em ensinar matemática se dá na falta de “uma metacognição adequada”
e para isso restringiram sua analise em uma abordagem sobre o significado de entender/compreender
numa perspectiva do significado desses termos.
Na matemática
especificamente, os autores exemplificam que quando um matemático se forma na
área e opta pela área especificamente técnica, não há necessidade de reflexões
sobre a própria técnica, basta apenas o domínio de sua aplicação. Quando um
matemático opta pela docência, logo a matemática e suas atribuições exigirão
contextualização, reflexão e como os próprios autores propuseram: compreensão e
entendimento. Esses componentes são essenciais para que a matemática faça
sentido para os que dela necessitam se apropriar.
Contextualizando
as teorias de Skemp (1919-1995) e Pierce (1839 e 1914), os autores fazem uma
reflexão na perspectiva de que para que haja uma apropriação dos conhecimentos
de matemática na escola, o domínio da técnica de chegar a um resultado não é o suficiente,
e mais além, aprender a aplicar uma técnica não deve ser a proposta do ensino
da matemática, uma vez que não é considerado como entendimento e compressão da
ciência. Na verdade, compreender como se calcula uma equação qualquer apenas
pela aplicação da fórmula e acerto do resultado não é o caminho para que o ensino
da matemática seja eficiente. Para que haja apropriação é necessário, segundo
os autores com auxílio da bibliografia apresentada, entender e compreender o e
o como que a matemática funciona a sua própria construção. Em suma,
afirmam que a semiótica é o caminho para se distanciar dos paradigmas do ensino
da matemática e alcançar sua funcionalidade dentro e fora do ambiente escolar.
Nessa
perspectiva, refletir
sobre as práticas de sala de aula como práticas para a vida social é o grande
desafio do professor da escola tradicional que caminha para uma educação
social.
Desvincular-se dos paradigmas da escola que é a principal referência de
educação em qualquer nova forma de educação é pensar na perspectiva de que a
sociedade não é linear nem estagnada, o conceito de educação também está em
constante mudança e a escola, também tende a mudança, mas mesmo assim a escola
é o fenômeno social que menos se modifica. Porém, muitas vezes, a escola tende
a seguir os caminhos ditados pelo capitalismo, pelo mercado. E foge do seu
principal meio de existência que é o indivíduo em sua condição de sujeito
pertencente a uma cultura.
Em discussões acadêmicas, é comum levantar questionamentos de como poderíamos
transgredir o que está posto como realidade educacional. Em princípio, muitas
das falas caem nas mesmas valas das falas de professores da escola tradicional
contemporânea do Brasil: 1. A existência de um currículo fechado e sem a
possibilidade de ruptura; 2. A precariedade das escolas; 3. A falta de
participação das famílias; 4. Turmas lotadas; 5. Exigências quanto a resultados
de avaliações de classificação e exclusão de alunos e escolas. Todas essas
falas são consideradas os principais empecilhos para que se promova uma
prática alternativa de educação dentro da escola regular e pública do DF, por exemplo, não
estando as escolas particulares fora de alguns desses argumentos.
Acontece
que, mesmo com essas falas há depoimentos de ações que realmente
transgrediram e foram eficientes dentro da verticalização da escola
tradicional. Algumas ações que trouxeram resultados que se esperam, mas de
forma alternativa. Como no caso de uma professora que, a partir, de uma
eventualidade na organização de atividades escolares promoveu conhecimento e
gerou premiação da escola e da professora. O depoimento foi de uma professora
que, com sua turma de séries iniciais, estava em fila para cantar o hino
nacional no primeiro dia da semana. Porém, as crianças se dispersaram da
atividade e se desorganizaram pelo surgimento de uma borboleta azul no meio do
pátio da escola. Todos queriam tocá-la e brincar. A professora, ao invés de
tentar reorganizar o grupo, saiu do pátio com as crianças e promoveu várias
atividades a partir dali com o tema da borboleta azul.
Esse
exemplo pode não ser muito claro, mas a transgressão está naquele momento de
socialização, de interação que foi propositor de novos conhecimentos. Todos os
conteúdos do currículo educacional cabem na temática da borboleta azul. Pensar
uma educação de forma alternativa dentro da escola é o primeiro passo para que
as mudanças sejam efetivamente realizadas. Os próprios sujeitos que estão na
escola para se apropriar de conhecimento sinalizam essas transgressões. Através
de comportamentos que podem ser considerados atípicos. Como por exemplo, pintar
a pessoa que desenhou de azul e não de cores que geralmente entendemos como
correto. Isso nos remete a percepção de que eu enxergo o outro com a cor que
entendo que ele tem.
A
prática como objeto de conhecimento é o principal recurso para que haja a troca
de saberes. Na matemática como outros conhecimentos, foi construído seu
conceito, sua funcionalidade através de práticas que foram sendo delineadas e
estruradas de forma a atender o desenvolvimento da humanidade. Por esta razão,
todo e qualquer conhecimento se deu de práticas, de trabalho. Quando um novo indivíduo nasce, esses instrumentos
(matemática, escrita de uma língua, por exemplo) já existem e tem uma história
de construção dentro de uma cultura. Dessa forma, o indivíduo se apropria do
que já está “estabilizado” socioculturalmente. Portanto, a fórmula matemática,
para tornar-se fórmula, teve uma série de experiências e práticas para que isso
chegasse a isso. Quando esse conhecimento é passado à frente, como sabemos, de
forma resultante, ou seja, apreende-se a fórmula e aplica-se a fórmula.
Entende-se como se usa a regra ortográfica e aplica-a quando for necessário de
acordo com a própria regra. E assim os conhecimentos são transmitidos – a regra
pela regra, ou a fórmula pela fórmula.
Voltando
ao texto, refletir sobre o que é entender/compreender não está em saber aplicar
uma fórmula ou uma regra ortográfica, mas saber o universo de aplicação disso
no grupo social. Aplicar uma regra não quer dizer saber/compreender matemática,
talvez tecnicamente realizar uma tarefa sem pensar, sem refletir, como uma
máquina faz. Quando se entende/compreende existe a possibilidade de criar, de
surgir o novo, e é a parir daí que se gera conhecimento. Porque quando entendo
algo, penso ele de outras formas. Quando executo algo, essa execução não varia,
como um programa de computador que está programado para fazer algo, ele fará
único e exclusivamente este algo.
Gleice Lemos