quinta-feira, 18 de julho de 2013

Ciberespaço: novas formas de aprendizagem


Gleice Amélia Gomes Lemos [1]
UCB

Resumo


Este texto apresenta um relato reflexivo sobre as experiências e troca de aprendizagens numa disciplina de programa de mestrado e doutorado em educação em que se estudou os jovens e suas relações com as novas tecnologias, e as novas configurações em que se dá a aprendizagem no ciberespaço. Também as percepções dessas novas formas de aprendizagem por educadores, pais, e/ou qualquer sujeito que tem como desafio a interação com as novas tecnologias. As reflexões despertadas nesse estudo concluíram que as novas tecnologias geram novas formas de sociabilidades e estas geram conflitos de gerações dificultando a interação entre professor-aluno, pelo fato de o uso das tecnologias serem predominantemente por jovens. E percebeu-se que é necessário que educadores apropriem-se desses novos paradigmas de sociabilidades para que consiga acompanhar e aproveitar o que estas novas formas de interação podem oferecer para auxiliar nas relações educacionais.

Introdução


Com formação em Letras, interessei-me pelo estudo de língua através de análise discursiva em que é considerado o simbólico, o social e o histórico do sujeito praticante da linguagem. Para melhor compreender como se dá a relação do sujeito com as diferentes formas de interação com a linguagem, e consequentemente com o conhecimento, mais especificamente, o conhecimento no espaço virtual, ingressei no Programa de Mestrado e Doutorado da Universidade Católica de Brasília.
Dentre algumas disciplinas cursadas, a intitulada Sociabilidades, Processos Culturais e Educação que tem o objetivo de estudar juventude e sociedade com ênfase em estudos aprofundados sobre as novas sociabilidades, em especial o jovem e sua relação com as tecnologias, foi-nos proposto a construção de um artigo em que fossem contempladas algumas das reflexões e novas aprendizagens adquiridas na disciplina.
Os estudos no curso foram divididos em três grandes eixos: abordagem conceitual de juventude, cibercultura e sociabilidades; relações entre juventudes e novas tecnologias e suas novas formas sociabilidades; e as implicações das novas tecnologias e novas sociabilidades no campo da educação.
Nessas perspectivas, este artigo trata, através das referências disponibilizadas, dos jovens e suas relações com as novas tecnologias, mais especificamente, as novas configurações em que se dá a aprendizagem no ciberespaço em comparação com as configurações da aprendizagem presencial. E trata-se também das percepções dessas novas formas de aprendizagem por educadores e a entidade escola - temas de discussão na disciplina.

O que se fala sobre a relação dos jovens com as novas tecnologias 

Em uma pesquisa realizada com estudantes universitários em que foram investigadas suas avaliações sobre as novas tecnologias, em especial, a internet em que foi questionada sua importância ou não para o desenvolvimento de uma sociedade democrática, os resultados permitiram, entre outros, “constatar que para estes jovens, as novas tecnologias são uma realidade irretornável na vida contemporânea.” Sousa (2011, p. 186).
Outro resultado dessa pesquisa foi o caráter superficial e passageiro das relações sociais em ambiente cibernético. “os dados mostram um posicionamento que vê na sociabilidade virtual e suas linguagens formas de interação passageiras, frágeis e descartáveis e novas formas de exclusão e preconceitos [...]” Sousa (2011, p. 186).
Inicie com estes dados para que possamos refletir sobre como o jovem enxerga o espaço virtual, primeiramente como algo irreversível, ou melhor, não se imaginam em seu dia-a-dia sem o recurso cibernético. Porém, criticam as relações sociais que se dão no ciberespaço, caracterizando-as como fúteis, passageiras e “as pesquisas têm indicado ainda que os relacionamentos virtuais não tendem a substituir os reais, mas, sim, a complementá-los” Sousa (2011, p. 185).
Outros pontos negativos apresentados na pesquisa foram a veracidade e confiabilidade dos conteúdos disponíveis no ciberespaço. Dessa forma, como há falta de confiabilidade nas informações disponíveis no ciberespaço, os jovens recorrem a referenciais como professores e “livros”, ainda.
Porém, por outro lado, as visões também são bastante otimistas, características como agilidade, funções utilitárias, rápido acesso, contatos diversos e ultrapassando barreiras, inclusive territoriais são os principais atributos que fazem do ciberespaço indispensável ao dia-a-dia dos jovens pesquisados (SOUSA, 2011).
Percebeu-se também que o domínio do ciberespaço proporciona ao jovem “poder” em relação ao adulto – pais e/ou professores, que, de acordo com pesquisas, os adultos não são tão familiarizados com o espaço virtual quanto os jovens. Portanto, o espaço virtual é predominantemente usado e vivenciado por jovens.
Dessa forma, se as novas tecnologias são de uso predominante entre jovens e também é uma nova forma de se socializar, então podemos entender que, outras formas de se sociabilizar tornam-se obsoletas e caem em desuso.  Porém, os pilares em que se sustentam as relações sociais, como por exemplo, família, escola, religião, não se perdem, porém se reconfiguram de forma que os “novos membros” que não são os mesmo de antes se relacionam de forma nova. Dessa forma, podemos afirmar que a invenção de novas tecnologias geram mudanças na cultura e na memória. Para (SIMMEL, 1983) os grupos sociais permanecem idênticos a si próprios com o passar do tempo, porém seus membros se alteram e desaparece, mas as estruturas sociais permanecem.

Dizemos que é o mesmo Estado, o mesmo exército, a mesma associação, que existe hoje e que já existia há dezenas e, talvez, centenas de anos atrás; entretanto, entre os membros atuais do grupo, não há, dentre eles, um que seja o mesmo de outros tempos. Deparamo-nos, aqui, com um daqueles casos em que a disposição das coisas no tempo apresenta uma notável analogia com sua disposição no espaço. (Simmel, 1983, p. 50)

Nas leituras recomendadas sobre a juventude e as novas tecnologias, percebeu-se que essas novas formas de sociabilidades é a principal forma de interação entre os jovens. Faz parte da cultura juvenil se relacionar através de meios tecnológicos, como celulares, computadores, entre outros recursos em que é possível se comunicar com o outro e com informações diversas. Dessa forma, a geração anterior a qual essas novas tecnologias não foram necessariamente indispensáveis em suas relações sociais, possui dificuldades de compreender e se relacionar com os jovens com os recursos tecnológicos. As novas tecnologias são representadas, nessas relações, como motivo de conflitos entre gerações.
Por conseguinte, as relações entre jovens e as novas tecnologias se estruturam em novas formas de sociabilidades já que as estruturas de relações sociais no ciberespaço, por exemplo, se dão de forma diferente das relações presenciais e essas novas formas funcionam e se instituem culturalmente. Estas novas formas Simmel (2006), define como sociação que, para ele, é quando

 [...] os indivíduos, em razão de seus interesses – sensoriais, ideais, momentâneos, duradouros, conscientes, inconscientes, movidos pela causalidade ou teleologicamente determinados -, se desenvolvem conjuntamente em direção a uma unidade no seio da qual esses interesses se realizam. Esses interesses, sejam eles sensoriais, ideais, momentâneos, duradouros, conscientes, inconscientes, casuais ou teleológicos, formam a base da sociedade humana. (SIMMEL, 2006, p.60).

O que se fala sobre as novas tecnologias e a escola 

A temática sobre novas tecnologias na aprendizagem, mais especificamente a tecnologia digital, ou melhor, o ciberespaço, nos traz um leque de possibilidades de compreender como este espaço pode se tornar ferramenta de aprendizagem em harmonia com a aprendizagem escolar. Aliar essas novas formas em que os conhecimentos estão disponíveis às formas já estabilizadas historicamente é um desafio para que nós educadores consigamos acompanhar o surgimento das novas sociabilidades.
Pesquisas apocalípticas de que as novas tecnologias substituirão as escolas e esta terá seu fim eminente (BUCKINGHAM, 2010) divergem com pesquisas que defendem que o espaço digital, por remeter ao discurso de “inovador” e “moderno”, imaginário que o sociólogo Simmel (1858- 1918) nos apresenta como a conservadora necessidade de novidade no mundo urbano, nos proporciona novas formas de apreensão de conhecimento e modernização da escola.
(Dias, 2009a) afirma que a tecnologia, como um todo, se manifesta e se significa no espaço urbano, dessa forma, a tecnologia, como todas as invenções humanas surgem para modernizar, inovar e substituir o antigo – cria novas formas de se relacionar, de se significar.
O gesto de escrever é umas das tecnologias mais antigas produzidas pelo sujeito para conhecer-se a si mesmo (DIAS, 2009b). Dessa maneira, compreender a historicidade da escrita nos auxilia na compreensão dos sentidos produzidos em suas diferentes ferramentas e suportes – as novas tecnologias, por exemplo -, daí então, poder-se-á “compreender que as diferentes formas de relação social estão ligadas a uma tecnologia e que a forma do conhecimento tem a ver com essa tecnologia” (p.10 – grifo meu).
Nesse contexto, percebemos que a tecnologia reconfigura as relações sociais, a cultura, e também reconfigura o como o conhecimento é apreendido. E, portanto, entendendo que o conhecimento e a tecnologia estão ligados pela linguagem, essa relação pode produzir efeitos de sentidos diferentes e o conhecimento também circula e se formula de forma diferente nessa relação (DIAS, 2009c).
            Em debates e discussões na disciplina em que se basearam essas reflexões, em que os mestrandos e doutorandos eram de áreas diversas como pedagogia, letras, marketing, educação física, administração, economia, história, entre outros, percebeu-se divergências de opiniões em relação às formas de sociabilidades no ciberespaço em comparação ao espaço presencial. Em recorte de um dos seminários em que se tratou de “leituras no ciberespaço”, foram percebidos muitos incômodos em decorrência de como se lê e o que se lê no ciberespaço e a qualidade do que se lê durante as navegações na rede. O debate restringiu-se principalmente à qualidade do que se lê no ciberespaço em contrapartida à referenciais já institucionalizados como livros, dissertações, pesquisas e o próprio professor.
            Nessas discussões, foi evidente a resistência de alguns mestrandos e doutorandos que são, em maioria, professores, às formas que se estruturam, se organizam e se dispõem os conhecimentos no ciberespaço. Produzindo, então, o que em Análise do Discurso é denominado como condições de produção dos discursos e estas são determinantes na individualização do sujeito, ou melhor, “podemos dizer que o lugar a partir do qual fala o sujeito é constitutivo do que ele diz.” Orlandi (2005, p.39). Portanto, aqueles professores em que as relações sociais e educacionais não se deram predominantemente com a utilização das novas tecnologias e que algumas das formações desses mestrandos e doutorandos estabelecem que, formas como o livro impresso, são consideradas imprescindíveis para a obtenção de certos tipos de conhecimentos, e, portanto a disposição em que se apresentam algumas literaturas no ciberespaço são passiveis de resistência e aceitação desses educadores.
Para (GADOTTI, 2000a) a cultura do papel é o principal obstáculo ao uso do espaço virtual, portanto, os educadores que não nasceram na geração conectada, não conseguem se desvincular de métodos e formas tradicionais de transmissão do conhecimento.  Porque os educadores ainda trabalham com formas tradicionais que não agradam as crianças e jovens.
(GADOTTI, 2000b) contextualização  é necessário para que a educação acompanhe o desenvolvimento tecnológico, que também sirva de inovação, e que a escola é lugar de interação com o conhecimento que também está disponível nas novas tecnologias, por conseguinte, sugere que

na sociedade da informação, a escola deve servir de bússola para navegar nesse mar do conhecimento, superando a visão utilitarista de só oferecer informações “úteis” para a competitividade, para obter resultados. O que significa servir de bússola? Significa orientar criticamente, sobretudo as crianças e jovens, na busca de uma informação que os faça crescer e não embrutecer (p. 8).

Nessas reflexões sobre relações sociais no ciberespaço e no espaço presencial, tem-se a ideia de que são estruturas totalmente diferentes. Porém, não podemos entender o ciberespaço como totalmente diferente do presencial, na verdade, o ciberespaço não é muito diferente das estruturas do espaço presencial, existem reproduções, inclusive sociais e ideológicas – é um espaço social, cultural e ideológico como outro qualquer (GOTVED, 2006). E dessa forma, as relações educacionais, afetivas, de lazer, e outras que também existem no espaço presencial também acontecem neste espaço. O que tem que ser compreendido é que tanto no ciberespaço quanto no espaço presencial as relações sociais existem e funcionam.

Como se fosse uma conclusão


            No decorrer desses quase cinco meses de curso, muitas aprendizagens foram trocadas e muitos questionamentos também se despertaram e necessitam de investigação. Porém, como este texto se caracteriza por um relato reflexivo, e a disciplina cursada foi o corpus de reflexão, a temática sobre as novas sociabilidades geradas pelas novas tecnologias que são predominantemente utilizadas por jovens, permitiu compreender algumas das dificuldades em utilizar essas novas tecnologias como ferramentas de aprendizagens por educadores.
            Também constatou-se nesse estudo que as novas tecnologias proporcionam novas formas de sociabilidades, de forma que, de acordo com a teoria simmeliana, o conteúdo pode ser o mesmo, porém a sua forma é variável. E essa forma caracteriza-se por variáveis de sociação e esta se dá na interação, então a sociação se dá necessariamente entre iguais e, dessa maneira, para que a escola, os educadores, pais, e/ou qualquer sujeito que tem como desafio a interação com as novas tecnologias, é necessário apropriar-se desses novos paradigmas de sociabilidades para que se consiga acompanhar e aproveitar o que estas novas formas oferecem para os interesses de cada um.
           

Referências bibliográficas



GADOTTI, Moacir. Perspectivas Atuais da Educação. SÃO PAULO EM PERSPECTIVA, 14(2) 2000.

GOTVED, Stine. Critical Cybrcuture Studies. New York university Press, 2006.

SIMMEL, George. Simmel: Sociologia. Organizador: Evaristo de Moraes Filho: tradução de Carlos Alberto de Pavanelli…et. Al. – São Paulo: Ática, 1983.

SIMMEL, G. (2006). Questões fundamentais da sociologia: indivíduo e sociedade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

SOUSA, C. A. M. Novas Linguagens e Sociabilidades: Como Uma Juventude Vê Novas Tecnologias. Interacções (Portugal), v. 7, p. 170-188, 2011.

ORLANDI, Eni. P. Análise de Discurso: princípios e procedimentos. Campinas, SP: Pontes, 1999.




[1] Aluna especial do Programa de Mestrado em Educação da Universidade Católica de Brasília.  Trabalho apresentado na disciplina Sociabilidades, Processos Culturais e Educação, em  19 de novembro de 2012.