Ciberespaço: novas formas de aprendizagem
Gleice Amélia Gomes Lemos [1]
UCB
Resumo
Este texto apresenta um relato
reflexivo sobre as experiências e troca de aprendizagens numa disciplina de
programa de mestrado e doutorado em educação em que se estudou os jovens e suas
relações com as novas tecnologias, e as novas configurações em que se dá a
aprendizagem no ciberespaço. Também as percepções dessas novas formas de aprendizagem
por educadores, pais, e/ou qualquer sujeito que tem como desafio a interação
com as novas tecnologias. As reflexões despertadas nesse estudo concluíram que
as novas tecnologias geram novas formas de sociabilidades e estas geram
conflitos de gerações dificultando a interação entre professor-aluno, pelo fato
de o uso das tecnologias serem predominantemente por jovens. E percebeu-se que
é necessário que educadores apropriem-se desses novos paradigmas de sociabilidades
para que consiga acompanhar e aproveitar o que estas novas formas de interação podem oferecer para auxiliar nas relações educacionais.
Introdução
Com
formação em Letras, interessei-me pelo estudo de língua através de análise
discursiva em que é considerado o simbólico, o social e o histórico do sujeito
praticante da linguagem. Para melhor compreender como se dá a relação do
sujeito com as diferentes formas de interação com a linguagem, e
consequentemente com o conhecimento, mais especificamente, o conhecimento no
espaço virtual, ingressei no Programa de Mestrado e Doutorado da Universidade
Católica de Brasília.
Dentre
algumas disciplinas cursadas, a intitulada Sociabilidades, Processos Culturais
e Educação que tem o objetivo de estudar juventude e sociedade com ênfase em estudos
aprofundados sobre as novas sociabilidades, em especial o jovem e sua relação
com as tecnologias, foi-nos proposto a construção de um artigo em que fossem
contempladas algumas das reflexões e novas aprendizagens adquiridas na
disciplina.
Os
estudos no curso foram divididos em três grandes eixos: abordagem conceitual de
juventude, cibercultura e sociabilidades; relações entre juventudes e novas
tecnologias e suas novas formas sociabilidades; e as implicações das novas
tecnologias e novas sociabilidades no campo da educação.
Nessas
perspectivas, este artigo trata, através das referências disponibilizadas, dos
jovens e suas relações com as novas tecnologias, mais especificamente, as novas
configurações em que se dá a aprendizagem no ciberespaço em comparação com as
configurações da aprendizagem presencial. E trata-se também das percepções dessas
novas formas de aprendizagem por educadores e a entidade escola - temas de
discussão na disciplina.
O que se fala sobre a relação dos jovens com as novas tecnologias
Em
uma pesquisa realizada com estudantes universitários em que foram investigadas
suas avaliações sobre as novas tecnologias, em especial, a internet em que foi
questionada sua importância ou não para o desenvolvimento de uma sociedade
democrática, os resultados permitiram, entre outros, “constatar que para estes
jovens, as novas tecnologias são uma realidade irretornável na vida
contemporânea.” Sousa (2011, p. 186).
Outro
resultado dessa pesquisa foi o caráter superficial e passageiro das relações
sociais em ambiente cibernético. “os dados mostram um posicionamento que vê na
sociabilidade virtual e suas linguagens formas de interação passageiras,
frágeis e descartáveis e novas formas de exclusão e preconceitos [...]” Sousa (2011,
p. 186).
Inicie
com estes dados para que possamos refletir sobre como o jovem enxerga o espaço
virtual, primeiramente como algo irreversível, ou melhor, não se imaginam em
seu dia-a-dia sem o recurso cibernético. Porém, criticam as relações sociais
que se dão no ciberespaço, caracterizando-as como fúteis, passageiras e “as
pesquisas têm indicado ainda que os relacionamentos virtuais não tendem a
substituir os reais, mas, sim, a complementá-los” Sousa (2011, p. 185).
Outros
pontos negativos apresentados na pesquisa foram a veracidade e confiabilidade
dos conteúdos disponíveis no ciberespaço. Dessa forma, como há falta de
confiabilidade nas informações disponíveis no ciberespaço, os jovens recorrem a
referenciais como professores e “livros”, ainda.
Porém,
por outro lado, as visões também são bastante otimistas, características como
agilidade, funções utilitárias, rápido acesso, contatos diversos e
ultrapassando barreiras, inclusive territoriais são os principais atributos que
fazem do ciberespaço indispensável ao dia-a-dia dos jovens pesquisados (SOUSA,
2011).
Percebeu-se
também que o domínio do ciberespaço proporciona ao jovem “poder” em relação ao
adulto – pais e/ou professores, que, de acordo com pesquisas, os adultos não
são tão familiarizados com o espaço virtual quanto os jovens. Portanto, o
espaço virtual é predominantemente usado e vivenciado por jovens.
Dessa
forma, se as novas tecnologias são de uso predominante entre jovens e também é
uma nova forma de se socializar, então podemos entender que, outras formas de
se sociabilizar tornam-se obsoletas e caem em desuso. Porém, os pilares em que se sustentam as
relações sociais, como por exemplo, família, escola, religião, não se perdem,
porém se reconfiguram de forma que os “novos membros” que não são os mesmo de antes
se relacionam de forma nova. Dessa forma, podemos afirmar que a invenção de
novas tecnologias geram mudanças na cultura e na memória. Para (SIMMEL, 1983)
os grupos sociais permanecem idênticos a si próprios com o passar do tempo,
porém seus membros se alteram e desaparece, mas as estruturas sociais
permanecem.
Dizemos que é o mesmo
Estado, o mesmo exército, a mesma associação, que existe hoje e que já existia
há dezenas e, talvez, centenas de anos atrás; entretanto, entre os membros
atuais do grupo, não há, dentre eles, um que seja o mesmo de outros tempos.
Deparamo-nos, aqui, com um daqueles casos em que a disposição das coisas no
tempo apresenta uma notável analogia com sua disposição no espaço. (Simmel,
1983, p. 50)
Nas
leituras recomendadas sobre a juventude e as novas tecnologias, percebeu-se que
essas novas formas de sociabilidades é a principal forma de interação entre os
jovens. Faz parte da cultura juvenil se relacionar através de meios
tecnológicos, como celulares, computadores, entre outros recursos em que é
possível se comunicar com o outro e com informações diversas. Dessa forma, a
geração anterior a qual essas novas tecnologias não foram necessariamente
indispensáveis em suas relações sociais, possui dificuldades de compreender e se
relacionar com os jovens com os recursos tecnológicos. As novas tecnologias são
representadas, nessas relações, como motivo de conflitos entre gerações.
Por
conseguinte, as relações entre jovens e as novas tecnologias se estruturam em
novas formas de sociabilidades já que as estruturas de relações sociais
no ciberespaço, por exemplo, se dão de forma diferente das relações presenciais
e essas novas formas funcionam e se instituem culturalmente. Estas novas formas
Simmel (2006), define como sociação que, para ele, é quando
[...] os indivíduos, em razão de seus interesses
– sensoriais, ideais, momentâneos, duradouros, conscientes, inconscientes,
movidos pela causalidade ou teleologicamente determinados -, se desenvolvem
conjuntamente em direção a uma unidade no seio da qual esses interesses se
realizam. Esses interesses, sejam eles sensoriais, ideais, momentâneos,
duradouros, conscientes, inconscientes, casuais ou teleológicos, formam a base
da sociedade humana. (SIMMEL, 2006, p.60).
O que se fala sobre as novas tecnologias e a escola
A
temática sobre novas tecnologias na aprendizagem, mais especificamente a
tecnologia digital, ou melhor, o ciberespaço, nos traz um leque de possibilidades
de compreender como este espaço pode se tornar ferramenta de aprendizagem em
harmonia com a aprendizagem escolar. Aliar essas novas formas em que os
conhecimentos estão disponíveis às formas já estabilizadas historicamente é um
desafio para que nós educadores consigamos acompanhar o surgimento das novas
sociabilidades.
Pesquisas
apocalípticas de que as novas tecnologias substituirão as escolas e esta terá
seu fim eminente (BUCKINGHAM, 2010) divergem com pesquisas que defendem que o
espaço digital, por remeter ao discurso de “inovador” e “moderno”, imaginário
que o sociólogo Simmel (1858- 1918) nos apresenta como a conservadora
necessidade de novidade no mundo urbano, nos proporciona novas formas de
apreensão de conhecimento e modernização da escola.
(Dias,
2009a) afirma que a tecnologia, como um todo, se manifesta e se significa no
espaço urbano, dessa forma, a tecnologia, como todas as invenções humanas
surgem para modernizar, inovar e substituir o antigo – cria novas formas de se
relacionar, de se significar.
O
gesto de escrever é umas das tecnologias mais antigas produzidas pelo sujeito
para conhecer-se a si mesmo (DIAS, 2009b). Dessa maneira, compreender a historicidade
da escrita nos auxilia na compreensão dos sentidos produzidos em suas
diferentes ferramentas e suportes – as novas tecnologias, por exemplo -, daí
então, poder-se-á “compreender que as diferentes formas de relação social estão
ligadas a uma tecnologia e que a forma do conhecimento tem a ver com
essa tecnologia” (p.10 – grifo meu).
Nesse
contexto, percebemos que a tecnologia reconfigura as relações sociais, a
cultura, e também reconfigura o como o conhecimento é apreendido. E, portanto,
entendendo que o conhecimento e a tecnologia estão ligados pela linguagem, essa
relação pode produzir efeitos de sentidos diferentes e o conhecimento também
circula e se formula de forma diferente nessa relação (DIAS, 2009c).
Em
debates e discussões na disciplina em que se basearam essas reflexões, em que
os mestrandos e doutorandos eram de áreas diversas como pedagogia, letras,
marketing, educação física, administração, economia, história, entre outros,
percebeu-se divergências de opiniões em relação às formas de sociabilidades no
ciberespaço em comparação ao espaço presencial. Em recorte de um dos seminários
em que se tratou de “leituras no ciberespaço”, foram percebidos muitos
incômodos em decorrência de como se lê e o que se lê no ciberespaço e a
qualidade do que se lê durante as navegações na rede. O debate restringiu-se
principalmente à qualidade do que se lê no ciberespaço em contrapartida à referenciais
já institucionalizados como livros, dissertações, pesquisas e o próprio
professor.
Nessas discussões, foi evidente a
resistência de alguns mestrandos e doutorandos que são, em maioria,
professores, às formas que se estruturam, se organizam e se dispõem os
conhecimentos no ciberespaço. Produzindo, então, o que em Análise do Discurso é
denominado como condições de produção dos discursos e estas são determinantes
na individualização do sujeito, ou melhor, “podemos dizer que o lugar a partir
do qual fala o sujeito é constitutivo do que ele diz.” Orlandi (2005, p.39).
Portanto, aqueles professores em que as relações sociais e educacionais não se
deram predominantemente com a utilização das novas tecnologias e que algumas
das formações desses mestrandos e doutorandos estabelecem que, formas como o
livro impresso, são consideradas imprescindíveis para a obtenção de certos
tipos de conhecimentos, e, portanto a disposição em que se apresentam algumas
literaturas no ciberespaço são passiveis de resistência e aceitação desses
educadores.
Para
(GADOTTI, 2000a) a cultura do papel é o principal obstáculo ao uso do espaço
virtual, portanto, os educadores que não nasceram na geração conectada, não
conseguem se desvincular de métodos e formas tradicionais de transmissão do
conhecimento. Porque os educadores ainda
trabalham com formas tradicionais que não agradam as crianças e jovens.
(GADOTTI,
2000b) contextualização é necessário para que a educação acompanhe o desenvolvimento
tecnológico, que também sirva de inovação, e que a escola é lugar de interação
com o conhecimento que também está disponível nas novas tecnologias, por
conseguinte, sugere que
na sociedade da
informação, a escola deve servir de bússola para navegar nesse mar do
conhecimento, superando a visão utilitarista de só oferecer informações “úteis”
para a competitividade, para obter resultados. O que significa servir de
bússola? Significa orientar criticamente, sobretudo as crianças e jovens, na busca
de uma informação que os faça crescer e não embrutecer (p. 8).
Nessas
reflexões sobre relações sociais no ciberespaço e no espaço presencial, tem-se
a ideia de que são estruturas totalmente diferentes. Porém, não podemos
entender o ciberespaço como totalmente diferente do presencial, na verdade, o
ciberespaço não é muito diferente das estruturas do espaço presencial, existem
reproduções, inclusive sociais e ideológicas – é um espaço social, cultural e
ideológico como outro qualquer (GOTVED, 2006). E dessa forma, as relações
educacionais, afetivas, de lazer, e outras que também existem no espaço
presencial também acontecem neste espaço. O que tem que ser compreendido é que
tanto no ciberespaço quanto no espaço presencial as relações sociais existem e funcionam.
Como se fosse uma conclusão
No decorrer desses quase cinco meses
de curso, muitas aprendizagens foram trocadas e muitos questionamentos também
se despertaram e necessitam de investigação. Porém, como este texto se
caracteriza por um relato reflexivo, e a disciplina cursada foi o corpus de
reflexão, a temática sobre as novas sociabilidades geradas pelas novas
tecnologias que são predominantemente utilizadas por jovens, permitiu
compreender algumas das dificuldades em utilizar essas novas tecnologias como
ferramentas de aprendizagens por educadores.
Também constatou-se nesse estudo que
as novas tecnologias proporcionam novas formas de sociabilidades, de forma que,
de acordo com a teoria simmeliana, o conteúdo pode ser o mesmo, porém a sua
forma é variável. E essa forma caracteriza-se por variáveis de sociação e esta se
dá na interação, então a sociação se dá necessariamente entre iguais e, dessa
maneira, para que a escola, os educadores, pais, e/ou qualquer sujeito que tem
como desafio a interação com as novas tecnologias, é necessário apropriar-se
desses novos paradigmas de sociabilidades para que se consiga acompanhar e
aproveitar o que estas novas formas oferecem para os interesses de cada um.
Referências bibliográficas
DIAS, Cristiane. A escrita como
tecnologia da linguagem. Disponível em: < http://w3.ufsm.br/hipersaberes/volumeII/index.php?option=com_content&view=article&id=1140:a-escrita-como-tecnologia-da-linguagem&catid=102:parte-i--imagem-e-escrita-da-historia-&Itemid=472>:
Acesso em 21 de out. de 2012.
GADOTTI, Moacir. Perspectivas Atuais da
Educação. SÃO PAULO EM PERSPECTIVA, 14(2) 2000.
GOTVED, Stine. Critical Cybrcuture Studies.
New York university Press, 2006.
SIMMEL, George. Simmel: Sociologia.
Organizador: Evaristo de Moraes Filho: tradução de Carlos Alberto de
Pavanelli…et. Al. – São Paulo: Ática, 1983.
SIMMEL, G. (2006). Questões fundamentais da
sociologia: indivíduo e sociedade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.
SOUSA, C. A. M. Novas Linguagens e
Sociabilidades: Como Uma Juventude Vê Novas Tecnologias. Interacções
(Portugal), v. 7, p. 170-188, 2011.
ORLANDI, Eni. P. Análise de Discurso:
princípios e procedimentos. Campinas, SP: Pontes, 1999.
[1]
Aluna especial do Programa de Mestrado em Educação da Universidade Católica de
Brasília. Trabalho apresentado na disciplina
Sociabilidades, Processos Culturais e Educação, em 19 de novembro de 2012.