quarta-feira, 24 de julho de 2013

Olá queridos visitantes!!


Hoje trouxe para vocês uma resenha crítica de um texto  que trata do que significa entender e compreender, exemplificando o ensino da matemática. Escolhi  resenhar este artigo  porque o que é problematizado muito se aproxima das discussões e reflexões sobre as formas alternativas de educação - o que não deixa de ser tecnologia.



O que significa Entender/Compreender?

ABIDO, A.S.
OTTE, M.F.


Os autores começam a reflexão nos apresentando as problemáticas existentes no ensino da matemática no contexto escolar. As dificuldades e falta de contextualização de conteúdos matemáticos com os sujeitos que dela se apropriam ou pelo menos acham que se apropriam. Para contextualizar as hipóteses dos autores que afirmam que a principal dificuldade em ensinar matemática se dá na falta de “uma metacognição adequada” e para isso restringiram sua analise em uma abordagem sobre o significado de entender/compreender numa perspectiva do significado desses termos.
            Na matemática especificamente, os autores exemplificam que quando um matemático se forma na área e opta pela área especificamente técnica, não há necessidade de reflexões sobre a própria técnica, basta apenas o domínio de sua aplicação. Quando um matemático opta pela docência, logo a matemática e suas atribuições exigirão contextualização, reflexão e como os próprios autores propuseram: compreensão e entendimento. Esses componentes são essenciais para que a matemática faça sentido para os que dela necessitam se apropriar.
            Contextualizando as teorias de Skemp (1919-1995) e Pierce (1839 e 1914), os autores fazem uma reflexão na perspectiva de que para que haja uma apropriação dos conhecimentos de matemática na escola, o domínio da técnica de chegar a um resultado não é o suficiente, e mais além, aprender a aplicar uma técnica não deve ser a proposta do ensino da matemática, uma vez que não é considerado como entendimento e compressão da ciência. Na verdade, compreender como se calcula uma equação qualquer apenas pela aplicação da fórmula e acerto do resultado não é o caminho para que o ensino da matemática seja eficiente. Para que haja apropriação é necessário, segundo os autores com auxílio da bibliografia apresentada, entender e compreender o e o como que a matemática funciona a sua própria construção. Em suma, afirmam que a semiótica é o caminho para se distanciar dos paradigmas do ensino da matemática e alcançar sua funcionalidade dentro e fora do ambiente escolar.
                Nessa perspectiva, refletir sobre as práticas de sala de aula como práticas para a vida social é o grande desafio do professor da escola tradicional que caminha para uma educação social.   Desvincular-se dos paradigmas da escola que é a principal referência de educação em qualquer nova forma de educação é pensar na perspectiva de que a sociedade não é linear nem estagnada, o conceito de educação também está em constante mudança e a escola, também tende a mudança, mas mesmo assim a escola é o fenômeno social que menos se modifica. Porém, muitas vezes, a escola tende a seguir os caminhos ditados pelo capitalismo, pelo mercado. E foge do seu principal meio de existência que é o indivíduo em sua condição de sujeito pertencente a uma cultura.
                Em discussões acadêmicas, é comum  levantar  questionamentos  de como poderíamos transgredir o que está posto como realidade educacional. Em princípio, muitas das falas caem nas mesmas valas das falas de professores da escola tradicional contemporânea do Brasil: 1. A existência de um currículo fechado e sem a possibilidade de ruptura; 2. A precariedade das escolas; 3. A falta de participação das famílias; 4. Turmas lotadas; 5. Exigências quanto a resultados de avaliações de classificação e exclusão de alunos e escolas. Todas essas falas são consideradas os principais empecilhos para que se promova uma prática alternativa de educação dentro da escola regular e pública do DF, por exemplo, não estando as escolas particulares fora de alguns desses argumentos.
                Acontece que, mesmo com essas falas há depoimentos de ações que realmente transgrediram e foram eficientes dentro da verticalização da escola tradicional. Algumas ações que trouxeram resultados que se esperam, mas de forma alternativa. Como no caso de uma professora que, a partir, de uma eventualidade na organização de atividades escolares promoveu conhecimento e gerou premiação da escola e da professora. O depoimento foi de uma professora que, com sua turma de séries iniciais, estava em fila para cantar o hino nacional no primeiro dia da semana. Porém, as crianças se dispersaram da atividade e se desorganizaram pelo surgimento de uma borboleta azul no meio do pátio da escola. Todos queriam tocá-la e brincar. A professora, ao invés de tentar reorganizar o grupo, saiu do pátio com as crianças e promoveu várias atividades a partir dali com o tema da borboleta azul.
                Esse exemplo pode não ser muito claro, mas a transgressão está naquele momento de socialização, de interação que foi propositor de novos conhecimentos. Todos os conteúdos do currículo educacional cabem na temática da borboleta azul. Pensar uma educação de forma alternativa dentro da escola é o primeiro passo para que as mudanças sejam efetivamente realizadas. Os próprios sujeitos que estão na escola para se apropriar de conhecimento sinalizam essas transgressões. Através de comportamentos que podem ser considerados atípicos. Como por exemplo, pintar a pessoa que desenhou de azul e não de cores que geralmente entendemos como correto. Isso nos remete a percepção de que eu enxergo o outro com a cor que entendo que ele tem. 
                A prática como objeto de conhecimento é o principal recurso para que haja a troca de saberes. Na matemática como outros conhecimentos, foi construído seu conceito, sua funcionalidade através de práticas que foram sendo delineadas e estruradas de forma a atender o desenvolvimento da humanidade. Por esta razão, todo e qualquer conhecimento se deu de práticas, de trabalho.  Quando um novo indivíduo nasce, esses instrumentos (matemática, escrita de uma língua, por exemplo) já existem e tem uma história de construção dentro de uma cultura. Dessa forma, o indivíduo se apropria do que já está “estabilizado” socioculturalmente. Portanto, a fórmula matemática, para tornar-se fórmula, teve uma série de experiências e práticas para que isso chegasse a isso. Quando esse conhecimento é passado à frente, como sabemos, de forma resultante, ou seja, apreende-se a fórmula e aplica-se a fórmula. Entende-se como se usa a regra ortográfica e aplica-a quando for necessário de acordo com a própria regra. E assim os conhecimentos são transmitidos – a regra pela regra, ou a fórmula pela fórmula.

                Voltando ao texto, refletir sobre o que é entender/compreender não está em saber aplicar uma fórmula ou uma regra ortográfica, mas saber o universo de aplicação disso no grupo social. Aplicar uma regra não quer dizer saber/compreender matemática, talvez tecnicamente realizar uma tarefa sem pensar, sem refletir, como uma máquina faz. Quando se entende/compreende existe a possibilidade de criar, de surgir o novo, e é a parir daí que se gera conhecimento. Porque quando entendo algo, penso ele de outras formas. Quando executo algo, essa execução não varia, como um programa de computador que está programado para fazer algo, ele fará único e exclusivamente este algo.

Gleice Lemos